Página do dia | Fale com Sophia
Sophia vive em algum lugar entre a fronteira do deserto do real com o mundo imaginário, lá onde passa o trem, perto da pracinha do caminho amarelo, que leva até a casa de chocolates que pertenceu à bruxa má, mas que hoje serve como pouso para seu amigo Manuel, cidadão pasargadense. Pasárgada é um lugarejo perdido no mapa, próximo ao País das Maravilhas e fazendo fronteira com Nárnia. Lugar que ficou isento do domínio das mentes pelas máquinas após o advento da inteligência artificial. Lá vive-se na corte e de música, recitando poesias e brincando de prazeres. Nos intervalos da loucura, Sophia volta para Governador Valadares, onde trabalha como jornalista e admira a enorme Pedra Negra a observar o Rio Doce em seu curso, e que, como na filosofia, cada dia é um rio.

"Quando, velhinha, a estas páginas fanadas, / Ela vier indagar das coisas encantadas / Que o futuro lhe diz, / Queira então o Amor que a fecunda lembrança / Dessa viagem feliz / Seja doce de ver como um céu em bonança!"

(Honoré de Balzac - As ilusões perdidas)



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Sexta-feira, Julho 02, 2010

meuquartoamarelo.blogspot.com

Anotações de Sophia | 10:30 AM | Notas de Rodapé:
Terça-feira, Janeiro 12, 2010
Muito tempo abandonado. Pensei que este blog não existia mais. Tentei acessá-lo e não consegui. Mas como consegui acessar o gerenciador, fico mais tranquila.

Anotações de Sophia | 7:46 PM | Notas de Rodapé:
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Agora "eu uso óculos" e faço "charme de intelectual". E ninguém no Leblon olha para mim porque, definitivamente, eu não circulo por lá...

Anotações de Sophia | 9:45 PM | Notas de Rodapé:
Sábado, Outubro 17, 2009
Apenas mais um post vazio

Muito tempo se passou e um longo silêncio se fez. Há muito não apareço por aqui. Mas estou de volta a Pasárgada, onde minha vontade de dizer as coisas fica maior.

Quando minha aventura no mundo da internet começou (nos tempos em que "ideia" ainda tinha acento), os blogs eram a onda da vez. Eu tinha um espaço para falar de mim, para praticamente quase ninguém. Isso ajudava um pouco na solidão e dava um certo alívio por saber que, embora a internet seja, aparentemente, um mundo de ninguém, eu ainda poderia contar coisas íntimas, sem que ninguém, além dos poucos que eu conheço na vida real, pudesse saber.

Agora, a onda é escrever pouco. Poucas linhas, ideias objetivas. Mas eu continuo a mesma. Continuo sendo uma ilha neste oceano de gente. Ainda não tenho compreensão. Ainda tenho Pasárgada, para onde fugir. E ainda preciso de uma fuga.


Anotações de Sophia | 11:07 AM | Notas de Rodapé:
Quarta-feira, Outubro 14, 2009
Diálogo Literário 5 – A verdade


- A verdade é uma utopia – Disse, olhando-se no espelho.

- Como? É claro que não – Ele fitava o reflexo dela e ela via os olhos dele pelo espelho – Eu estou te dizendo a verdade.

- Não. Não está.

- Você não sabe, você não estava lá.

- Por isso mesmo eu sei que não é a verdade. É só um ponto de vista. O seu.

- Você gosta de distorcer as coisas. Se confiar em mim, saberá que o que eu digo é a verdade.

- Eu confio. Mas a verdade, a verdade mesma, genuína, você não saberá dizer. Nada é verdadeiro.

- Você e suas filosofias...

- A verdade deixa de ser verdade quando se conta. A verdade se perde nos relatos...


Anotações de Sophia | 10:44 AM | Notas de Rodapé:
Quarta-feira, Setembro 02, 2009
Estou com problemas sobre ter o que dizer. Por isso não tenho dito nada. Acho que é a correria. Pasárgada já não é mais a mesma.

Anotações de Sophia | 9:05 PM | Notas de Rodapé:
Segunda-feira, Abril 20, 2009
A noiva

Ela se olhou pela última vez no espelho, observando o belo vestido branco, o véu, o penteado, a maquiagem e o buquê, antes de se dirigir à Igreja. Tentou, mas não conseguiu se lembrar de outro momento tão feliz. Talvez porque, por muito tempo, não acreditou na felicidade.

Todos os dias ela conhecia a morte. Abria cadáveres de pessoas que tinham sido amadas, por quem outras sofriam. Acidente, incêndio, atropelamento, ferimento à bala, envenenamento, infarto. Morte natural, assassinato, legítima defesa. Pessoas inocentes, pessoas culpadas. Sempre havia uma causa para a morte. Ou uma justificativa.

Mas pensar que o fim sempre foi a morte a afastou do amor por um longo tempo. Até que não conseguiu mais fugir dele. Quando o conheceu, ele a salvou. Salvou de um universo de morte, de perda, para a doce realidade da vida.

Namoraram bem pouco. Não tinham tempo. A ânsia por se conhecerem era grande. Ele era de família tradicional, queria se casar. Ela aceitou. Não era do tipo noiva, mas, de repente, começou a sonhar. Passou meses se preparando e preparando o casamento. Igreja, convites, enxoval, vestido. Coisas de noiva. Marcaram o casamento civil para o dia anterior à cerimônia. E se casaram.

Agora, ela só precisava dizer sim diante de centenas de pessoas queridas para experimentar a vida. Caminhou lentamente, como se quisesse aproveitar a sensação que sentiria de ser olhada. Sentiu o perfume das rosas do buquê. Tinha memória olfativa.

No caminho, observou as luzes da cidade. E achou tudo bonito. Estranhamente, naquele dia ela amava tudo. Amava o mundo. Amava o esposo. Amava a Deus. Amava a vida.

Chegaram rápido à Igreja. Estranhou porque o fotógrafo não veio até o carro, como tinham combinado no contrato das fotos. Pediu para que o chamassem. Ao invés dele, veio seu irmão. Ela viu nos olhos dele que alguma coisa estava errada.

- Eu sinto muito. Ele estava vindo para a Igreja, mas parece que um carro, em alta velocidade, atingiu o que ele estava. A batida foi frontal. A polícia acabou de nos avisar. Eu sinto muito.

Ela abaixou a cabeça e viu as rosas. Vermelhas. Lamentou ter escolhido um buquê vermelho. Como o sangue. Seus olhos se encheram de lágrimas e antes que ela não pudesse mais contê-las, perguntou:

- Onde ele está? Em que hospital. Pai, vamos ao hospital.

Do lado de fora do carro, ela via seus convidados. Todos olhavam para o carro, com olhos marejados, e comentando uns com os outros: “pobrezinha! Levou tanto tempo para se acertar e agora isso...”. Ela sabia o que cada olhar representava.

- Em que hospital? – insistia, quase aos gritos.

- Ele não está no hospital. Ninguém que estava com ele no carro sobreviveu. Eu sinto muito.

Ela soluçou. A dor que sentia era tão grande, como se seu coração fosse parar. Não podia respirar. As lágrimas eram desesperadas. Todos olhavam para ela. E a imprensa começou a chegar.

- Vou tirar você daqui – disse o pai.

- Não! – insistiu. Ela queria saber por que a imprensa estava lá.

O carro foi cercado.

- O que você fará agora? Vai perdoar o motorista que provocou o acidente? Você ouviu a declaração do governador? – eram as perguntas.

- Governador? – Ela perguntou ao irmão.

- É que o motorista que atingiu a contramão e bateu no carro de seu noivo era filho do governador. A Polícia acredita que ele estivesse bêbado. E não tinha carteira de motorista – respondeu, selando assim a injustiça.

Ela respondeu superficialmente à imprensa. Queria mesmo ver o marido, mesmo que morto. Aquele era o dia deles, o dia do amor deles. Tomou assento ao volante e dirigiu. Inicialmente, sem rumo. Mas, depois, ela sabia exatamente para onde ir.

Ainda vestida de noiva, chegou ao lugar que a afastou por tanto tempo do amor. Procurou pelo marido. Eles nem o haviam retirado da enorme caixa de metal e despido seu corpo frio. Seus colegas, aqueles que não tinham conseguido folga para ir ao casamento, comentavam que nunca haviam visto noiva tão linda e tão triste. Ajudaram-na a preparar o corpo dele. E, um a um, ela foi limpando e costurando os ferimentos. Consertando as fraturas. Até deixá-lo o mais parecido possível com aquele que ela conheceu.

Não chorou, apenas suspirou. E ali, olhando para ele, ela ficou durante toda a noite, em uma despedida sem fim. Era a noite deles. A noite de amor.


Anotações de Sophia | 8:51 PM | Notas de Rodapé:
Sexta-feira, Março 13, 2009
Chegou ontem meu novo CD dos Paralamas, Brasil Afora. Ainda não escutei as canções, apenas li as letras. Acho que, finalmente, eles voltaram. Algumas letras são fracas, outras muito legais. Tem música do Arnaldo Antunes e do Carlinhos Brown. Mas também tem música do Herbert Vianna...

Ainda bem!

O trecho que mais gostei foi este:

"Por ti tento acender
Outra luz em nossa casa
Lembro que sempre sonhei
Viver de amor e palavra"

(Mormaço)


Anotações de Sophia | 1:03 PM | Notas de Rodapé:
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009
Li hoje na internet que um sobrevivente do Holocausto cancelou a publicação de suas memórias por ter inventado uma história de amor... pois é... fico mesmo com a sabedoria de García Márquez, que diz que a mentira é mais perigosa na Literatura do que na realidade.

Anotações de Sophia | 5:17 PM | Notas de Rodapé:
Sexta-feira, Janeiro 09, 2009
Dos restos
(Liminha - Herbert Vianna)

Do lixo deixado
Dos restos que o mundo
Não tem como esconder
Nos cantos escuros
Nas fendas dos muros
Veja se você vê
Surgem novas criaturas
Novos pontos de interrogação
Nossa casa não é mais tão segura
E as crianças querem alguma explicação
Mas é preciso coragem pra não desistir
E não achar que tudo que vivemos foi em vão
Pra essa nova moral oportunista
Eu me viro e digo não


Anotações de Sophia | 2:06 PM | Notas de Rodapé:

"Até que Deus revele o futuro dos homens,
toda sabedoria humana estará concentrada em duas palavras: ter fé e esperar"

Edmund Dantés - O Conde de Monte Cristo (Alexandre Dumas)

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