Sophia vive em algum lugar entre a fronteira do deserto do real com o mundo imaginário, lá onde passa o trem, perto da pracinha do caminho amarelo, que leva até a casa de chocolates que pertenceu à bruxa má, mas que hoje serve como pouso para seu amigo Manuel, cidadão pasargadense. Pasárgada é um lugarejo perdido no mapa, próximo ao País das Maravilhas e fazendo fronteira com Nárnia. Lugar que ficou isento do domínio das mentes pelas máquinas após o advento da inteligência artificial. Lá vive-se na corte e de música, recitando poesias e brincando de prazeres. Nos intervalos da loucura, Sophia volta para Governador Valadares, onde trabalha como jornalista e admira a enorme Pedra Negra a observar o Rio Doce em seu curso, e que, como na filosofia, cada dia é um rio.
"Quando, velhinha, a estas páginas fanadas, / Ela vier indagar das coisas encantadas / Que o futuro lhe diz, / Queira então o Amor que a fecunda lembrança / Dessa viagem feliz / Seja doce de ver como um céu em bonança!"
(Honoré de Balzac - As ilusões perdidas)
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Segunda-feira, Abril 20, 2009
A noiva
Ela se olhou pela última vez no espelho, observando o belo vestido branco, o véu, o penteado, a maquiagem e o buquê, antes de se dirigir à Igreja. Tentou, mas não conseguiu se lembrar de outro momento tão feliz. Talvez porque, por muito tempo, não acreditou na felicidade.
Todos os dias ela conhecia a morte. Abria cadáveres de pessoas que tinham sido amadas, por quem outras sofriam. Acidente, incêndio, atropelamento, ferimento à bala, envenenamento, infarto. Morte natural, assassinato, legítima defesa. Pessoas inocentes, pessoas culpadas. Sempre havia uma causa para a morte. Ou uma justificativa.
Mas pensar que o fim sempre foi a morte a afastou do amor por um longo tempo. Até que não conseguiu mais fugir dele. Quando o conheceu, ele a salvou. Salvou de um universo de morte, de perda, para a doce realidade da vida.
Namoraram bem pouco. Não tinham tempo. A ânsia por se conhecerem era grande. Ele era de família tradicional, queria se casar. Ela aceitou. Não era do tipo noiva, mas, de repente, começou a sonhar. Passou meses se preparando e preparando o casamento. Igreja, convites, enxoval, vestido. Coisas de noiva. Marcaram o casamento civil para o dia anterior à cerimônia. E se casaram.
Agora, ela só precisava dizer sim diante de centenas de pessoas queridas para experimentar a vida. Caminhou lentamente, como se quisesse aproveitar a sensação que sentiria de ser olhada. Sentiu o perfume das rosas do buquê. Tinha memória olfativa.
No caminho, observou as luzes da cidade. E achou tudo bonito. Estranhamente, naquele dia ela amava tudo. Amava o mundo. Amava o esposo. Amava a Deus. Amava a vida.
Chegaram rápido à Igreja. Estranhou porque o fotógrafo não veio até o carro, como tinham combinado no contrato das fotos. Pediu para que o chamassem. Ao invés dele, veio seu irmão. Ela viu nos olhos dele que alguma coisa estava errada.
- Eu sinto muito. Ele estava vindo para a Igreja, mas parece que um carro, em alta velocidade, atingiu o que ele estava. A batida foi frontal. A polícia acabou de nos avisar. Eu sinto muito.
Ela abaixou a cabeça e viu as rosas. Vermelhas. Lamentou ter escolhido um buquê vermelho. Como o sangue. Seus olhos se encheram de lágrimas e antes que ela não pudesse mais contê-las, perguntou:
- Onde ele está? Em que hospital. Pai, vamos ao hospital.
Do lado de fora do carro, ela via seus convidados. Todos olhavam para o carro, com olhos marejados, e comentando uns com os outros: “pobrezinha! Levou tanto tempo para se acertar e agora isso...”. Ela sabia o que cada olhar representava.
- Em que hospital? – insistia, quase aos gritos.
- Ele não está no hospital. Ninguém que estava com ele no carro sobreviveu. Eu sinto muito.
Ela soluçou. A dor que sentia era tão grande, como se seu coração fosse parar. Não podia respirar. As lágrimas eram desesperadas. Todos olhavam para ela. E a imprensa começou a chegar.
- Vou tirar você daqui – disse o pai.
- Não! – insistiu. Ela queria saber por que a imprensa estava lá.
O carro foi cercado.
- O que você fará agora? Vai perdoar o motorista que provocou o acidente? Você ouviu a declaração do governador? – eram as perguntas.
- Governador? – Ela perguntou ao irmão.
- É que o motorista que atingiu a contramão e bateu no carro de seu noivo era filho do governador. A Polícia acredita que ele estivesse bêbado. E não tinha carteira de motorista – respondeu, selando assim a injustiça.
Ela respondeu superficialmente à imprensa. Queria mesmo ver o marido, mesmo que morto. Aquele era o dia deles, o dia do amor deles. Tomou assento ao volante e dirigiu. Inicialmente, sem rumo. Mas, depois, ela sabia exatamente para onde ir.
Ainda vestida de noiva, chegou ao lugar que a afastou por tanto tempo do amor. Procurou pelo marido. Eles nem o haviam retirado da enorme caixa de metal e despido seu corpo frio. Seus colegas, aqueles que não tinham conseguido folga para ir ao casamento, comentavam que nunca haviam visto noiva tão linda e tão triste. Ajudaram-na a preparar o corpo dele. E, um a um, ela foi limpando e costurando os ferimentos. Consertando as fraturas. Até deixá-lo o mais parecido possível com aquele que ela conheceu.
Não chorou, apenas suspirou. E ali, olhando para ele, ela ficou durante toda a noite, em uma despedida sem fim. Era a noite deles. A noite de amor.
Anotações de Sophia | 8:51 PM | Notas de Rodapé:
Sexta-feira, Março 13, 2009
Chegou ontem meu novo CD dos Paralamas, Brasil Afora. Ainda não escutei as canções, apenas li as letras. Acho que, finalmente, eles voltaram. Algumas letras são fracas, outras muito legais. Tem música do Arnaldo Antunes e do Carlinhos Brown. Mas também tem música do Herbert Vianna...
Ainda bem!
O trecho que mais gostei foi este:
"Por ti tento acender
Outra luz em nossa casa
Lembro que sempre sonhei
Viver de amor e palavra"
(Mormaço)
Anotações de Sophia | 1:03 PM | Notas de Rodapé:
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009
Li hoje na internet que um sobrevivente do Holocausto cancelou a publicação de suas memórias por ter inventado uma história de amor... pois é... fico mesmo com a sabedoria de García Márquez, que diz que a mentira é mais perigosa na Literatura do que na realidade.
Anotações de Sophia | 5:17 PM | Notas de Rodapé:
Sexta-feira, Janeiro 09, 2009
Dos restos
(Liminha - Herbert Vianna)
Do lixo deixado
Dos restos que o mundo
Não tem como esconder
Nos cantos escuros
Nas fendas dos muros
Veja se você vê
Surgem novas criaturas
Novos pontos de interrogação
Nossa casa não é mais tão segura
E as crianças querem alguma explicação
Mas é preciso coragem pra não desistir
E não achar que tudo que vivemos foi em vão
Pra essa nova moral oportunista
Eu me viro e digo não
Anotações de Sophia | 2:06 PM | Notas de Rodapé:
Sexta-feira, Janeiro 02, 2009
Algo que escrevi em 2004 e achei perdido na pasta de Contos do meu computador.
O corte
Era um daqueles cortes bem profundos, que nunca saram sem deixar marcas... era um corte com cicatriz anunciada. Algo que provava para a memória que alguma coisa ainda faltava, que insistia em dizer que se tinha carência. E sentir falta de alguma coisa ou de alguém é algo que também machuca, de modo que o corte parecia ser eterno.
Não se podia ver a carne. Era puro sangue, era só o que havia naquele buraco. Alguma coisa havia acontecido, já que era externo como a verdade que sempre se leva na cara. Como aconteceu? Nunca se soube. Só se sabia a respeito daquilo que se via e o que se via era nada além de um corte.
Como fendas em muros de becos escuros, coisa que só cresce e quando se nota, assusta. A água, a infiltração, os seres que surgem daquelas fendas são misteriosos demais para se ter certeza de sua existência. Apenas se percebe quando eles causam o incômodo de invadir a rotina de pessoas comuns, como excrementos sociais.
E o que surge disto? Arrisco dizer: novos pontos de interrogação, como sugeriu Herbert Vianna. Um mundo miserável, sem explicação, sem origem. Assim são os cortes, os becos, os muros, as fendas, a carne e o sangue... assim é a falta que se sente... assim é a vida que nos dão para viver...
Hoje o corte ainda jorra sangue. Nunca cicatrizou. Foi para toda a vida, para o resto da vida, como a sorte de quem sempre desejou a morte. Já dizem por aí que o corte foi bastante cultivado, aberto todos os dias, com um prazer que sente quem gosta de sofrer... e assim ficou para sempre... sempre corte.
Anotações de Sophia | 11:22 PM | Notas de Rodapé:
Quinta-feira, Dezembro 04, 2008
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Anotações de Sophia | 5:43 PM | Notas de Rodapé:
Segunda-feira, Outubro 13, 2008
"Amanheceu o pensamento..."
Anotações de Sophia | 7:38 PM | Notas de Rodapé:
Terça-feira, Outubro 07, 2008
Bruno, um ano e três dias sem você... um ano!
Anotações de Sophia | 11:48 AM | Notas de Rodapé:
Segunda-feira, Agosto 04, 2008
Eu não conhecia realmente a descrença até agora. Até senti-la.
É parar de sofrer por alguma coisa que incomodou você por muito tempo.
De certa forma, é a banalização da dor, da solidão. É não acreditar até mesmo na esperança.
Simplesmente, em um momento que eu desconheço, eu parei de sentir.
Parei de sentir falta.
Deixei de ter expectativas.
De algum modo, creio que estou morta.
Anotações de Sophia | 5:36 PM | Notas de Rodapé:
Terça-feira, Julho 22, 2008
Hoy tengo "la sed"
Ficar muito tempo sem escrever faz a gente perder a prática. A criatividade nunca é suficiente para mais que duas linhas. E para quem gosta de ver páginas inteiras sendo preenchidas, saboreando o doce som do teclado, o esgotamento criativo é uma tortura.
Estou assim. Levo 15 minutos para pensar um parágrafo que, em outros tempos, sairia em dois minutos da minha cabeça. E ao final tenho a sensação de que não está nada bom, que falta aquele toque que tornará o texto mais agradável para a leitura, mais saboroso para quem o consome.
Talvez sejam as mudanças. Muitas ao mesmo tempo. Tantas que não consigo somar, calcular ou perceber.
Talvez meu impulso criativo esteja mesmo em estado terminal. E agora será preciso muito esforço, muito suor para ampliar o número de linhas na página.
Talvez eu nunca tenha tido criatividade, e somente agora percebi. Achava que era simples escrever e que sempre haveria quem lesse. Não existem mais leitores de mim. Não existe mais público.
É possível que também não haja razão.
Anotações de Sophia | 11:45 AM | Notas de Rodapé:
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"Até que Deus revele o futuro dos homens, toda sabedoria humana estará concentrada em duas palavras:
ter fé e esperar"
Edmund Dantés - O Conde de Monte Cristo (Alexandre Dumas)
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